Bom, galera, temos aí mais um texto de nossos amigos Colaboradores. Este aqui é da Lyra Líbero. (Lyra-Linda) Mais dela no http://www.gacum.blogspot.com/ Espero que curtam :) Lembrando o e-mail pra enviarem as colaborações, reclamações, recados e etc: barnasianos@gmail.com Beijocas, Karla.
A Criatura Secreta do Estômago
Quando era criança, eu não entendia. Não percebia o que se passava, e por isso me sentia tão estranha, alheia, sozinha. Não entendia o que era aquela dor latente e agonizante que sentia no fundo do estômago, que fazia doer todo o meu corpo, que me acometia sempre à noite. Achavam que eu era doente. Achavam que eu era problemática. Achavam que era fome.
Quando eu finalmente descobri o que era, saí falando pra todo mundo, tamanha a minha felicidade e meu desespero em provar que eu não era esfomeada, tampouco doente ou esquisita. Eu me descobri como a criatura mais normal da face da terra, mas que apenas tem uma coisinha de diferente... Um detalhe à toa, um buraco pequeno e quase que insignificante no meio da tela abstrata que sempre fui. Tinha um monstro morando dentro de mim.
Eu cheguei e disse à minha mãe, com a dignidade tão simplória que as crianças em geral possuem:
"Tem um monstro morando na minha barriga!"
E o rosto dela se enrijeceu num misto de reconhecimento e abnegação. Depois sorriu da minha felicidade e disse: "Naturalmente, é verme. Deve ser uma tênia ou lombriga, com certeza". E deu-me litros de vermífugo com gosto de tutti-frutti com arsênico, que engoli sem nem reclamar. Ela disse que de uma vez por todas ia matar o bicho que estava me habitando e carcomendo minhas forças.
Mas o bicho não morreu, e confesso que ele até gostou da avalanche de líquido rosa fluorescente que invadiu o habitat dele. Riu da minha cara, e se divertiu navegando no laguinho cor-de-rosa enquanto pôde. Ele riu porque sabia que se morresse, eu morreria junto.
Foi ele que me disse pra começar a ler aqueles livros velhos e de capa grossa que eu encontrava na biblioteca dos colégios que freqüentei. Cada vez que eu me assombrava com seu conteúdo, ele apenas se aninhava num canto quente do meu estômago e ronronava de prazer a me ver tão absorta e deslumbrada com aquilo que ele sabia que me faria bem.
Foi ele que sussurrou no meu ouvido, cada vez que eu conhecia um amigo ou amiga qualquer, que aquela pessoa seria boa ou má comigo. E nas vezes em que eu não dei ouvidos a ele, saí de todo machucada. Quando a adolescência chegou, odiava quando eu saía pra algum tipo de festa. Dizia que as comidas de festa, com seus salgadinhos de um litro de gordura e com seus refrigerantes ácidos, eram veneno. E quando comecei a beber coisas alcoólicas, ele ria da minha cara estridentemente perante a ressaca do dia seguinte. Achava meus complexos de inferioridade demasiado pueris, mas agüentava minhas crises de identidade sem dar um pio. Também me acompanhava nas noites de medo e de insônia, silencioso, mas acordado e amedrontado como eu.
O que eu mais amava era que ele me absorvia sempre quando a tristeza pesava uma tonelada e meia. Eu ouvia sua voz macia e ao mesmo tempo bestial, coberta de instintos, amainando minha incapacidade de sobreviver nesse mundo caótico e bizarro.
Quando cresci, deixei os amigos falsos, e os livros se tornaram companheiros. Os salgadinhos deixaram de ser atrativos, e o mundo adulto parece cada vez mais próximo. Alguns complexos deixaram de existir, outros ainda persistem. Já faz algum tempo que eu não sinto o calor dele dentro do meu estômago, nem ouço sua voz. Desde que, após um almoço em que eu me senti muito mal, vomitei uma borboleta.
Acho que era uma mariposa, não uma borboleta, porque as asas eram escuras e continham um brilho escuro e opaco. Quando eu a vi, dentro da privada, no meio dos restos do almoço, ela estava imóvel, meio suja. Num segundo sacudiu e esticou as asas, e saiu voando pela porta. Minha irmã deu um berro na sala, mas ela conseguiu fugir pela janela no dia ensolarado antes que alguém viesse espantá-la com uma vassoura.
Fiquei olhando-a sumir pelo céu alegre e azul, com meu coração quente e ao mesmo tempo sentindo um vazio imenso, como se um pedaço meu tivesse sido arrancado. Logo depois senti uma paz pequenina e tímida, misturada com uma melancolia lenta, que depois foi substituída (mas não de todo) por uma alegria gelada de saber que uma parte de mim havia, finalmente, se libertado. Naquele dia, chorei umas lágrimas doces, com gosto enjoativo de tutti-frutti e asas de inseto.